terça-feira, 23 de outubro de 2012

Soneto XXV em português




Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.

E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.

Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,

tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.


Pablo Neruda

Apenas



Existem tantas coisas que me nos fazem parar para refletir sobre o que estamos fazendo, por que e como estamos ou não fazendo.
         De repente bate aquela crise existencial que parece que assola toda a rotina e deixa meio incerto tudo aquilo que já era considerado fato. Esse é o tipo de situação que acaba com meu astral, afinal quem mais inventa essas maluquices? E mais, quem é que vai dar bola? É por isso que eu digo : “quando eu encontrar alguém que consiga conviver comigo de perto e continuar me amando eu paro de conversar com meu espelho.”
         Sabe, não sou aquela garota perfeitinha, que sempre sorri e acena  para todo mundo, como se este fosse uma platéia. Na verdade eu encaro, fico emburrada e não escondo mesmo que não estou nem ai. Eu, mal-educada? Absolutamente. Eu apenas me recuso a aceitar que vivo para o que os outros pensam, para que eu seja aplaudida ou não no final do ato.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Fragmentos de Clara

Escrevo a você que andas imponente a afirmar
Com pompa e segurança em demasia,
Que a doce Clara que andava a trepidar,
De tempos em quando tornou-se uma menina má.

Diante do problema que reacai em minhas mãos
Não vejo outra saída afora minha versão.
Saiba que galantes insensíveis sob o pretesto de gostar
Arrancarm de Clara suspiros e fizeram-na chorar.

Afirmo portanto, a você que me lê
Que é preciso um olhar carinhoso pra então compreender.
Dá declaração que faço agora muitos irão duvidar:
Longe de Clara ser assim tão má!

Se por ora decidires continuar com esse olhar incrédulo
Perder-se-a por fim nos misteriosos fragmentos de Clara
Que também sabe dar-se inteira e por completo
Mas somente a quem descobrir como ama-la.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A nuvem



Um nuvem paira sobre nós
escura, densa e pesada
um borrão cinzento num céu de pureza


(ah, mas o outono passou)
E uma nuvem se pendura no queixo da lua
Uma nuvem negra e grande
carregada de luxúria

Desejosa quer derramar sobre nós sua chuva bacante
E você precisa querer se molhar
eu já estou molhado, bebê
Regado no vinho da vontade
de que a água caia em mim e em ti
para que depois, figure no horizonte púrpura
um arco-íris de paz e inércia.



Elton Sdl